11 março 2011

Rascunho de Stand Up


Nota necessária: O texto abaixo é uma tentativa pueril de fazer humor a partir do meu cotidiano. Alunos que por acaso puserem os olhos nisso: vocês sabem que amo vocês! Tô só tirando onda, mal e porcamente, então sem dramas! E sim, o texto é mais baseado em fatos reais do que eu gostaria...



Ser professor é uma experiência de vida sem igual. Dar aula é uma coisa que muda!

Muda a sanidade. Muda o estado de saúde.

Só não muda a conta bancária.

(essa fica ancorada no mesmo patamar de quase falência pelo resto de sua existência)

Mas tudo bem. Pq ensinar é uma coisa que dignifica a pessoa, né? Tipo assim, edifica.

Eu tinha essa colega pedagoga e um dia a gente conversando eu falei alguma coisa dos alunos e ela:

"Ai, não usa esse termo..."

Termo? Que termo? Eu nem disse nada demais - bem que pensei, mas dizer não disse.

"Aluno. Não fica bem. A gente diz educando, estudante... aluno é uma coisa ultrapassada, até o significado é uma coisa ruim."

Quê que quer dizer aluno?

"Ai, é latim... rs... quer dizer ser sem luz"

...

Então, meus ALUNOS são uma coisa impressionante.

Especialmente aluno de cursinho.

Eu dou aula em cursinho de inglês, desses que o aluno começa quando é um feto na turma de kids e passa anos a fio lá dentro até tá fazendo o adulto-pós-avançado-mega-plus-2!

Acontece essa coisa incrível: os muleque aprende inglês!

Em termos, pq uma boa parte do que aprende tem a ver com os interesses.

O Justin Bieber "canta" em inglês; Os vampiro viado é tudo americano, e por ai vai.

Conjugar o to be é uma epopéia, mas qualquer palavrão em inglês, ou vulgaridades e duplos sentidos em geral, são conhecidos em sua pronúncia e entonação adequadas, uso contextualizado e variações regionais.

"Any of you fuckin'pricks move and I'll execute every one of you motherfuckers! Got that?"

Ótimo é quando se tem aquele aluno nerd, do tipo que joga rpg no computador e não pega ninguém. A criatura é incapaz de dizer "camiseta" em inglês. Mas pergunta pra ele como é que se diz "paladino com espada bastarda +2 para matar verme do inferno"...

Esses alunos, que começam no berçário e seguem estudando no cursinho, quando chegam nos 14, 15 anos sofrem um fenômeno peculiar: o conhecimento de inglês acumulado em oito ou dez anos é muito superior ao conhecimento geral deles, e infinitamente superior ao conhecimento de português!

São capazes de fazer qualquer tradução no puro instinto, mesmo que não tenham a menor idéia do que a palavra signifique em nossa língua pátria.

Por exemplo, tem lá no vocabulário da lição "TANGIBLE"

- Queridos alunos, o que quer dizer tangible?

- Tangível!

- Muito bem! E o que quer dizer tangível?

- É, É... é como galinha! Você faz Xô Xô e ela vai embora! Tem vaca que é tangível e tem vaca que não, umas você tange e vai, outras você tange e as bicha fica no mesmo lugar! Mosquito num é tangível, você tenta e tenta tanger o bicho e ele continua por lá!

Tem mais.

Um texto lá sobre Madre Teresa de Calcutá, com uma foto dela.

Comecei estabelecendo o rapport, relacionando o conteúdo com o conhecimento prévio dos alunos e blá blá blá

- O que vocês sabem sobre Madre Teresa de Calcutá?

- Ela é brasileira? (sim, Calcutá é um assentamento do MST junto ao morro da rocinha, lá em Belo Horizonte, pertinho do mar)

- Ela é um tuaregue?

- UM OQ?

- Olha o pano na cabeça dela!

- Ela era uma freira!

- Ela morreu?

Ao texto, então. Lá pras tantas o texto fala do trabalho de Madre Teresa com as dying people. O que quer dizer dying people?

- Pessoas que estão morrendo.

- Very good! E qual a palavra que a gente usa para pessoas que estão morrendo em português?

- MORRENTES!

- Moribundos!

- Moribundo? Tem esse bicho lá na fazenda, eles sai voando e picando o povo!

- Professor, um moribundo é uma abelha morta-viva? Uma abelha zumbi?

Edifica, né?

Tinha esse guri num colégio que eu trabalhei que no terceiro ano do ensino médio conseguiu ser reprovado em quase todas as matérias. No último ano. De física a português, de biologia a matemática, de religião a educação artística!

Educação artística, véio!

Puta que pariu!

O moço só não foi reprovado em inglês. Por questão de princípio não chuto cachorro morto. E aí, sabe falar to be? Sabe não mas tá quase? dá logo um oito e de boa.

A dona da escola tinha um mote: "Essa não é uma escola de conteúdo, é uma escola da vida!" (voz profética e olhar distante/embevecido sempre ao dizer isso)

Quando ela soube da reprovação desse guri, eventualmente filho de um figurão na cidade, ela começou logo com o discurso de escola de vida e não de conteúdo.

"A gente não pode reprovar o garoto assim, o único na sala dele!!! Ele vai ficar traumatizado! O que nós vamos estar ensinando com essa reprovação?"

Pra começar que vagabundo que não trabalha não come. Eu acho que já era uma lição de muito bom tamanho. Mas ninguém pediu minha opinião.

Então a diretora convocou o meliante à escola e disse: "olha, você vai fazer uma redação nessa folha de papel que eu tô te dando e daí a gente vê o que dá pra fazer por você"

Aquele foi um momento mágico.

Uma experiência mística transcendental, sem precedentes na história da humanidade.

A criaturinha desiluminada garatujou quatro parágrafos num idioma razoavelmente próximo ao português e esse trabalho foi tão impressionante, tão colossal, tão FUDEROSO que ele foi aprovado imediatamente em TODAS as matérias.

De física a português, de biologia a matemática, de religião a educação artística!

Até educação artística!

Mas o mais tocante nisso tudo foi a reunião de professores posterior. A diretora confortando os professores, que não precisavam ficar preocupados com essa aprovação, nem se martirizar, e dar as notas novas sem medo. Pq ela, a diretora, é uma mulher que reza.

Isso mesmo, ela disse: "Eu sou uma mulher que rezo. Todo dia eu falo com Deus. E se eu errasse, se eu tomasse uma única decisão errada na minha gestão, DEUS ME DIRIA!"

Praticamente o telefone vermelho do comissário Gordon!




7 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Eu ri! Se você não for tímido, vai praticando é uma opção, tem gente a beça ganhando dinheiro com besteiras piores, rs
abs
Jussara

Débora disse...

eu ri MUITO!
e me lembrei de um aluno que colocava 'e etc...' (sic!) em todas as provas. "De física a português, de biologia a matemática, de religião a educação artística!
Até educação artística!"
ashuahsuahusauhshuashuashu
adooooooooro!

...loucos apontamentos disse...

Ok, não sei se o 1 comentario foi um elogio ou não. Lembrei de uma professora la da faculdade que no 1 dia de Aula colocou no quadro:
REPROVO POR FALTA.
4.9 = 4.9 (diferente de 5)
RECADINHO NA PROVA = -1.
sO ACEITO QUESTÕES COMPLETAS.
ETC.

Acho q ela nunca teve que ouvir coisas assim na aula, daria de cara um -5 ao dito cujo.

heeh.

dri chaves disse...

haaha... neiri você é demais! Apesar de já ter tido algumas experiências com ALUNOS e de ter um olhar EMBEVECIDO por algumas causas que considero importante, ainda que diferente do olhar da dita diretora, gosto da maneira que você trata os absurdos, faz-me rir muito e acabo sentindo sua falta...

Aliás,acho que conheço essa pedagoga? Ou é impressão?

bjs

Palavras Vagabundas disse...

Foi um elogio viu, loucos apontamentos!
bjs
Jussara

...loucos apontamentos disse...

A copy that. Palavras vagabundas.

Pink disse...

Acho que ri mais relendo do que lendo a primeira vez. Ou não.
Sei que passei mal de rir agora.
Tinha esquecido o fim peculiar com a diretora. Desta parte eu não ri.